A abordagem de doentes com Doença Inflamatória Intestinal (DII) em contexto de urgência representa, frequentemente, um desafio significativo para o gastrenterologista.

Avaliar com precisão a gravidade do quadro clínico, identificar potenciais fatores precipitantes de agudização e reconhecer o eventual surgimento de manifestações extraintestinais pode ser uma tarefa complexa, particularmente em ambientes de elevada pressão assistencial, como os Serviços de Urgência, cada vez mais sobrecarregados.

A anamnese ocupa um lugar central neste contexto e não deve, em circunstância alguma, ser subvalorizada. A caracterização da doença de base — nomeadamente o tipo de DII, a sua localização e extensão — é essencial, assim como o conhecimento detalhado sobre a terapêutica em curso, tratamentos realizados recentemente e eventuais razões para a introdução de novos fármacos. A história clínica deve ainda contemplar antecedentes cirúrgicos relacionados com a doença, complicações associadas (como neoplasia colorretal), e episódios prévios de exacerbação com necessidade de internamento.

A avaliação sintomática deve abranger de forma minuciosa as queixas intestinais: dor abdominal (localização, intensidade, carácter e fatores modificadores), padrão e frequência das dejeções (incluindo classificação segundo a escala de Bristol), presença de sangue, muco, urgência ou incontinência fecal, e ocorrência de diarreia noturna. Adicionalmente, é importante inquirir sobre sintomas sistémicos, como febre, calafrios, perda ponderal recente, náuseas ou vómitos, sinais sugestivos de fístulas (por exemplo, queixas urinárias), bem como manifestações extraintestinais — articulares, orais, cutâneas ou oculares.

A abordagem inicial deve incluir a avaliação dos sinais vitais e um exame físico rigoroso, com especial atenção para sinais de desidratação, toxicidade sistémica, irritação peritoneal, massas abdominais palpáveis e, quando pertinente, exame perianal.

Do ponto de vista laboratorial, impõe-se a realização de um estudo analítico completo: hemograma com leucograma, marcadores inflamatórios como a proteína C reativa, avaliação da função renal, ionograma e provas de função e enzimologia hepática. Dado o papel relevante das infeções como desencadeantes de agudizações, devem ser incluídas coproculturas, pesquisa de Clostridioides difficile e rastreio de infeção por citomegalovírus (CMV).

A investigação imagiológica é igualmente essencial. A ecografia abdominal e a radiografia simples do abdómen são fundamentais para exclusão de complicações. Quando estas são suspeitas, deve ser realizada uma tomografia computorizada (TC) abdominopélvica. A realização de retosigmoidoscopia no momento da admissão é recomendada, tanto para a avaliação da gravidade como para a exclusão de causas infeciosas.
Nos casos de colite ulcerosa, a aplicação dos critérios de Truelove e Witts permite a identificação de colite ulcerosa aguda grave, sendo imperioso iniciar precocemente terapêutica dirigida.

Em situações de Doença de Crohn com complicações, ou em casos de colite ulcerosa grave, deve ser ponderada desde cedo a articulação com a equipa de Cirurgia Geral, de forma a garantir uma abordagem multidisciplinar e o tratamento adequado de situações como coleções abcedadas, sépsis perianal, estenoses com suboclusão, megacólon tóxico, entre outras.

Autoria: Young GEDII
Tiago Leal, Francisco Vara Luiz, Maria José Temido, Raquel Oliveira