DII e Vida Sexual

A doença inflamatória intestinal (DII) é frequentemente diagnosticada em idade jovem, uma altura em que a vida sexual, afetiva e familiar está em plena construção. Dúvidas sobre o impacto da doença e da medicação na fertilidade e sexualidade surgem naturalmente nesta fase. Efetivamente, cerca de metade das pessoas com DII referem que gostariam de poder discutir sexualidade com o seu médico, enquanto mais de dois terços dos gastrenterologistas referem também que deveriam falar de sexualidade com os doentes. Contudo, a grande maioria dos médicos nunca ou raramente o faz, por falta de formação ou de tempo, ou por constrangimento e sensação de inutilidade. espaço.png

A prevalência da disfunção sexual está aumentada na DII em comparação com a população geral. Isto associa-se à atividade da doença, que não só pode condicionar fadiga e desconforto, como também se relaciona fortemente com fatores psicossociais, como preocupações com a imagem corporal, depressão e ansiedade. Além disso, sintomas como dor abdominal, pélvica ou perianal, diarreia, urgência ou drenagem perianal podem causar contração como mecanismo protetor ou criar dissinergia do pavimento pélvico, provocando com sintomas como a dispareunia. De facto, o primeiro passo para a tranquilização dos doentes poderá passar pela explicação de todos estes mecanismos, transmitindo que a DII poderá não impedir uma vida sexual satisfatória, mesmo em casos de doentes que necessitem de estoma. espaço.png

Efetivamente, a inflamação, a dor e a fadiga associadas à doença podem diminuir a lubrificação vaginal ou afetar a ereção, mas estes obstáculos podem ser ultrapassados com lubrificantes tópicos ou ajuda farmacológica. Por outro lado, apesar de a dispareunia poder ocorrer por disfunção do pavimento pélvico, dor intensa e persistente durante a penetração vaginal deve levantar a suspeita de patologia perianal ou fistulosa ativa, e pode justificar avaliação dirigida. espaço.png

Um receio muito frequente das pessoas com DII é a ocorrência de “acidentes” relacionados com incontinência anal durante o ato sexual. Alguns conselhos práticos, como a escolha do momento certo, evitando refeições pesadas e escolhendo posições confortáveis com menor pressão abdominal ou perianal, podem tranquilizar os doentes. É também importante normalizar estes riscos, encorajando os doentes a partilhar os seus receios e a definir limites com os seus parceiros. Ainda assim, caso estes episódios sejam frequentes, uma avaliação médica para excluir, por exemplo, de atividade da doença, pode ser crucial. espaço.png

São poucas as atividades “proibidas” na DII, mas pode ser importante referir estas exceções na consulta. Nomeadamente, doença perianal ativa, proctite ulcerosa ativa, abcessos perianais, estenoses anais e bolsas ileoanais devem ser encaradas como contraindicação para a prática de sexo anal recetivo. espaço.png

Por outro lado, é essencial transmitir a informação de que os anticonceptivos orais, amplamente usados, são eficazes na DII, não se associam a agudizações da doença e que maioritariamente apresentam baixo risco tromboembólico. Tanto quanto possível, participar da escolha anticoncetiva da pessoa com DII pode facilitar uma decisão consciente e autónoma. espaço.png

Outra preocupação frequente dos doentes relaciona-se com a fertilidade. A voluntary childlessness, ou a escolha de não ter filhos, é mais prevalente em pessoas com DII, mas é frequentemente condicionada por fatores como a falta de conhecimento e medos relacionados com a gravidez ou hereditariedade da doença. É essencial transmitir que, embora a fertilidade possa encontrar-se diminuída durante a fase ativa da doença, é possível ter uma gravidez de sucesso, sendo idealmente planeada em fase de remissão. espaço.png

Por fim, as pessoas com DII têm frequentemente questões relativas à sua vida sexual e ao impacto da doença que muitas vezes não conseguem abordar espontaneamente na consulta. Criar um ambiente livre de julgamentos e oferecer algumas informações de forma espontânea pode permitir à pessoa esclarecer estas questões lenta e abertamente. Não obstante, reconhecer as nossas limitações como gastrenterologistas é essencial, sendo importante referenciar a consultas de Psicologia / Sexologia / Ginecologia sempre que tal se afigure necessário. espaço.png espaço.png

Autoria: Young GEDII

Tiago Leal, Francisco Vara Luiz, Maria José Temido, Raquel Oliveira

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