Colite Ulcerosa Aguda Grave

A colite ulcerosa aguda grave (ASUC) é uma emergência médica que ocorre em 15 a 25% dos doentes com colite ulcerosa. Está associada a morbilidade significativa, uma vez que cerca de 15% dos doentes acabam por necessitar de colectomia e apresenta uma mortalidade não negligenciável, próxima de 1%. espaço.png

A abordagem deve ser rápida e cuidadosamente monitorizada. À admissão, a gravidade é definida segundo os critérios de Truelove and Witts, que consideram a doença grave quando existem seis ou mais dejeções diárias associadas a sinais de toxicidade sistémica (frequência cardíaca >90 bpm, temperatura >37,8ºC, hemoglobina <10,5 g/dL, velocidade de sedimentação >30 mm/h ou proteína C-reativa >3 mg/dL). espaço.png

Nestes casos, está indicado o internamento hospitalar e a realização de estudo analítico e de uma radiografia simples do abdómen para excluir megacólon tóxico (dilatação cólica >5,5 cm associada a toxicidade sistémica). O estudo analítico, deve incluir hemograma, marcadores inflamatórios, toxina de C. difficile, PCR multiplex e exame parasitológico (se fatores de risco) das fezes e Quantiferon, se sem doseamento recente. Em situações de dúvida diagnóstica, pode ser necessária uma TC abdominal para excluir complicações como perfuração. É fundamental suspender o uso de fármacos anticolinérgicos, opióides e anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), que podem agravar o quadro clínico. espaço.png

O tratamento deve iniciar-se com corticoterapia endovenosa em alta dose. A antibioterapia empírica não é recomendada, a menos que haja suspeita de sobreinfeção bacteriana, como em casos de megacólon tóxico. A resposta à corticoterapia deve ser avaliada ao terceiro dia, dado que cerca de 30–40% dos doentes não respondem a esta terapêutica. O score de Travis (ou de Oxford) é o mais utilizado para prever falência terapêutica — um doente com mais de 8 dejeções diárias, ou mais de 3 dejeções associadas a PCR >45 mg/L no terceiro dia de corticoterapia, tem cerca de 85% de probabilidade de necessitar de colectomia se mantiver esta terapêutica. espaço.png

Na ausência de resposta, deve iniciar-se rapidamente terapêutica de resgate, com infliximab ou ciclosporina, ambos recomendados e com eficácia semelhante a curto e longo prazo. O Infliximab está associado a uma maior redução do risco de colectomia, apesar de apresentar também maior risco de infeção. Contudo, a eficácia global destas terapêuticas é limitada e a evidência dos estudos realizados é baixa. Em alguns casos, poderá utilizar-se uma maior dose de infliximab (10 mg/kg), dadas as características farmacocinéticas desfavoráveis, como hipoalbuminemia e perdas fecais aumentadas do fármaco. Estratégias alternativas incluem regimes de indução acelerada nas três primeiras doses. espaço.png

Os inibidores da JAK (tofacitinib ou upadacitinib) têm sido estudados como alternativas. Têm um rápido início de ação, elevada potência, ausência de imunogenicidade e são menos suscetíveis à perda de medicamento devido à hipoalbuminemia. Um estudo multicêntrico recente de Honap et al. mostrou que estas terapêuticas são eficazes a curto e longo prazo como terapêutica de resgate em doentes sem resposta a corticoterapia. espaço.png

Se ausência de resposta a terapêutica de resgate, pode tentar-se uma terapia de terceira linha, embora esta seja geralmente pouco eficaz e apenas atrase a necessidade de colectomia, sem melhoria do prognóstico. Assim, na ausência de resposta em 2–3 dias, deve ser ponderada colectomia precoce.

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Autoria: Young GEDII

Tiago Leal, Francisco Vara Luiz, Maria José Temido, Raquel Oliveira

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